Quebrei alguns ovos ao entrar no carro com as sacolas do mercado. A frustração se somou ao nervosismo que ainda aparece toda vez que me proponho a dirigir. Ao chegar em casa, senti o ímpeto de entorpecer minha mente acelerada em alguma linha do tempo controlada por algoritmos, mas não sobrou nenhum aplicativo do tipo no meu celular. Sem distrações, tive que sentir.

Pouco antes das férias, li um texto (que eu não encontrei mais para colocar o link aqui) que ajudou a virar totalmente a chave em relação ao meu uso das plataformas digitais. Não foi o conteúdo em si que mudou meu olhar, mas a naturalidade do autor em repetir que a maneira como usamos essas plataformas é um vício — e de vício, eu entendo, tenho uma relação vai-e-vem com o tabaco há uma década. Na mesma semana, percebi que quando ficava ansiosa, pegava o celular automaticamente. Foi aí que apaguei todos os aplicativos que eu não preciso e decidi que não ia usar o Instagram nas férias.
Também recentemente, assisti o vídeo de um cara que trocou as plataformas de streaming de música por um iPod durante um mês. A experiência de ouvir música sem o intermédio de um algoritmo o levou além: ele também deletou o Instagram, transformou o celular num dumbphone, arranjou uma câmera fotográfica, uma máquina de escrever, etc. Ao longo da jornada, ele percebeu que a vida é muito melhor com dispositivos e plataformas não-intermediadas por algoritmos. Ele passava mais tempo com a família e recebia recomendação de música de amigos e não de um código programado, por exemplo. Mas o saldo do experimento foi frustrante. Depois do detox, ele decidiu retomar o uso de algumas plataformas, como Spotify e Instagram, pois concluiu estar apto a usá-las de maneira consciente a seu favor. Sou pessimista demais pra acreditar que isso seja possível a longo prazo e, em última análise, depois de um mês de experimentos e reflexões realmente boas sobre o papel dos algoritmos na vida moderna, ele propõe uma solução individual.
Não o culpo. Quando decido não usar o Instagram nas férias, deletar quase todos os apps do celular, colocar limite de tempo nos que sobraram, demorar pra responder as mensagens do Whatsapp, não ter um Tiktok, usar o Youtube só no computador com uma extensão do navegador que bloqueia as recomendações do algoritmo, navegar a Internet de maneira ativa, explorar sites e usar a barra de busca, não só assistir o que aparece na minha frente, etc… Tudo isso são tentativas de melhorar a minha vida, mas não muda a estrutura viciante das plataformas. E eu identifiquei isso mais fortemente quando recebi amizades & familiares em casa nas tais férias em que eu decidi ficar offline.
Durante cinco dias estive na companhia de pessoas e dos sons de seus celulares. A Ofélia da Taylor Swift preenchia o espaço sonoro do meu pequeno quarto, enquanto eu, ativamente evitando o aparelho verde-musgo repousando na estante à minha frente, assistia todo mundo fisicamente próximo, mas cognitivamente distante, grudados em um entretenimento fácil, rápido, individual & personalizado. Era primeiro de janeiro, feriado, a cidade estava lotada, os comércios fechados, fazia calor e o acesso às praias estava complicado, ninguém queria ficar parado no engarrafamento num carro sem ar-condicionado. Sóbria na dopaminolândia, eu era a única que parecia preocupada em propor alguma coisa: cozinhei o almoço, à tarde fiz panquecas de banana, depois sugeri uma visita à casa da nossa prima, uma caminhada no bairro. Ninguém sugeria nada, nenhuma ideia, nenhum plano do que poderíamos fazer, afinal, estava todo mundo já fazendo alguma coisa. O ócio era só meu.
É evidente: estamos passivamente navegando a vida moderna, imersos num ambiente digital desenhado para nos manter aprisionados, mas com a sensação de felicidade. Nossos comportamentos, escolhas e preferências são matéria-prima para os interesses de outros que não nós mesmos, nossa atenção roubada junto da possibilidade de sonhar, imaginar e construir um futuro porque estamos ocupados demais assistindo um anúncio de creme facial.

Há vinte anos, em 2006, criei meu primeiro perfil em uma rede social acessando a Internet no computador da família da minha vizinha. Ela, na cadeira giratória, eu, no banquinho ao lado. Há dez anos, em 2016, tatuei no antebraço direito um coração em que está escrito “Internet” dentro. Hoje, esquecemos que a Internet é mais do que três ou quatros apps nos nossos celulares inteligentes e as redes sociais não existem mais. Insistimos nesse nome porque, frente a um evento sem precedentes, acabamos usando conceitos preexistentes como referência no processo de tentar compreendê-lo, mas as palavras importam e precisamos de outra. Afinal, a rede social virou mais uma mineradora de dados com cara de shopping do que um ambiente digital para conectar pessoas.
Gosto de terminar meus textos com uma nota, senão positiva, pelo menos propositiva, mas dessa vez não tenho nada. As big techs nos colocaram numa sinuca de bico e a única maneira que encontrei de encerrar esse texto é contar o que eu pretendo fazer frente a tudo que contei aqui. Com sorte, alguém pode refletir, se inspirar e, no melhor dos casos, se mobilizar.
Planos digitais para 2026
- Lançamento do Bemte.li
O Bemte.li é o um projeto pessoal-coletivo que eu construo com meus amigos Luccas e Felipe. Há quase três anos, desenvolvemos o sonho de uma alternativa de niusleter brasileira, gratuita e de código aberto. As conversas, pesquisas e aprendizados desse processo influenciam muito a minha relação com a Internet e as plataformas digitais. Este texto hospedado nesta página, por exemplo, é um resultado direto do impacto do Bemte.li na minha vida. Com sorte, um bocado de vontade e trabalho em equipe, este ano o projeto nasce.
2. Ter um espaço na Internet que é um URL, não um arroba
Nas pesquisas para o Bemte.li ao longo dos anos, fui encontrando cantos e esquinas na Internet que ainda resistem à plataformização. Nos anos 1990 e 2000, chamávamos alguns deles de blog. Este é o meu blog e a materialização da vontade de ter um espaço digital que é um URL, não um arroba.
Por que isso é importante? Individualmente, a vontade de ter um canto pra chamar de meu pode parecer vaidade, mas a forma como usamos a Internet influencia nossa subjetividade (e pesquisas que relacionam vídeos de curto formato à nossa capacidade de atenção mostram que também influencia nos mecanismos do cérebo). Coletivamente, que impacto seria gerado se as pessoas voltassem a usar a Internet de forma mais autônoma? Ter um blog pessoal hoje em dia é tipo ter uma horta em casa: eu sei que não vou ser autossuficiente de comida, mas compreender que eu posso plantar uma semente, regar, cuidar, vê-la crescer e morrer, talvez colher suas folhas e frutos, fazer um chá, temperar minha comida. Algo pequeno-mas-crucial se transforma em mim a partir dessa experiência.
Muita gente vê o Substack como um espaço digital que faz diferente, um refúgio das redes sociais, porque lá se publica textos longos e não vídeos de curto formato. Mesmo assim, ele ainda é uma plataforma algoritmizável e algoritmizada controlada por uma grande empresa de tecnologia que, se não tem anúncio, tem paywall, e você consegue usar o site ou o app sem fazer uma única pesquisa na barra de busca porque tem linhas do tempo e seções personalizadas que navegam por e para você, te recomendando isso ou aquilo.
A real é que a gente não sabe mais usar a Internet, só circulamos no shopping, enquanto tem uma cidade inteira pra explorar — talvez você já tenha visto essa metáfora por aí. Na cidade além do shopping, a gente tem que buscar, explorar, construir, tomar decisões por conta própria. Talvez seja um lugar onde não tem ninguém e onde, com certeza, você não vai encontrar formas de fazer, nem de gastar, dinheiro.
Me apropriei do Substack, uma loja dentro do shopping, para convidá-la a sair de lá. Agora, te convido a povoar a Internet novamente também: crie um blog que não é um Substack.

Lembro dos verões quando eu acordava na casa da minha vó e o único compromisso do dia era ler. Sentava na varanda depois do café da manhã e, envolvida na história, engolia duzentas páginas de uma vez só. Ainda tento me dedicar a um livro nas férias, o único momento em que consigo mimetizar a luana-criança que conseguia passar horas e horas do dia lendo, mas faz uns anos que troquei as histórias de fantasia por livros cabeçudos escritos por mulheres foda. Depois do episódio das férias relatado aqui, decidi encarar A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova era do poder, da Shoshana Zuboff. Esse livro me apoiou com as palavras e os conceitos que faltavam para costurar esse texto. Encerro com palavras da autora:
“Assim como a civilização industrial floresceu à custa da natureza e agora há a ameaça de o preço a pagar por ela ser o planeta Terra, uma civilização da informação moldada pelo capitalismo de vigilância e seu novo poder instrumentário irá prosperar à custa da natureza humana e ameaçará custar-nos a nossa humanidade.”
Obrigada por visitar meu blog.
Um abraço,
