Fazer livro fazer pizza fazer

firme & forte

digitalizo um exemplar pronto
do meu primeiro livro
o cheiro de pão assando
preenche o pequeno espaço
que é escritório-sala-cozinha

minha única resolução de ano novo é
fazer mais do que consumir
— sigo firme & forte
com as unhas cheia de terra
que lavo para depois sujar de novo
com massa de pão

de manhã, as mãos
firmes passam a linha na agulha
de tarde, os braços
fortes serram uma barra de aço
de noite, a mente
me lembra que é domingo

coloco o álbum do waguinho pra tocar
& choro um pouquinho

Tudo que eu escrevo é verdade. No fim de semana que escrevi esse poema, eu plantei novas mudas e fiz um pão de fermentação natural que queimou embaixo. Era mesmo domingo à noite quando ouvi o álbum “Domingos à noite” do meu amigo Wagner. Eu tinha costurado uns livros de manhã, à tarde serrei uma barra rosqueada que ia compor a nova prensa de livros, tudo isso porque vou autopublicar meus poemas.

Desde que tomei essa decisão — depois de uma oficina de arquivo & publicação que eu participei em outubro do ano passado — uma palavra se repete constantemente na minha cabeça: fazer. Meu livro, meu blog, minha horta, minhas pizzas, tudo isso e mais que isso vêm de uma vontade arrebatadora de fazer. Fazer pequeno, mas fazer sempre.

Eu estava em um momento de baixa energia criativa & alto consumo midiático quando ouvi este podcast. No episódio, a Anna compartilha o experimento que ela fez de limitar seu consumo de mídia por um tempo determinado. No final do ano passado, eu decidi fazer esse exercício também, adaptado pra minha realidade: durante uma semana, apenas livros, músicas e os podcasts semanais que eu já acompanhava estavam permitidos; séries e filmes eu só podia assistir com meu namorado e o único app desnecessário que eu podia acessar era o de astrologia. Na lista de proibidos, tinha: Instagram, Youtube e outras redes; assistir filmes, séries e televisão sozinha; usar o Chat GPT e pesquisar infos que não são realmente necessárias. O objetivo era reduzir o tempo de consumo de informação & entretenimento passivo durante 7 dias para abrir espaço para criar — ou pelo menos pra sentir tédio. E abriu mesmo.

Até aquele momento, eu achava que meu fazer-artístico era algo que eu ainda ia encontrar. Que eu teria que tirar um tempo pra investigá-lo e, eventualmente, ele estaria lá, escondido nesse horizonte. Depois da oficina de arquivo & publicação, que me ajudou a olhar para o que eu já tinha produzido, e do exercício de reduzir meu consumo de mídia, eu descobri que meu fazer-artístico já existia. O que eu achava que eram só poemas soltos, tinham um corpo que eu gostava e até combinavam entre si. Notei que escrevia principalmente sobre o cotidiano e compreendi que viver faz parte do meu processo criativo. Reuni os poemas, selecionei e editei; no momento em que escrevo este texto, já produzi 30 exemplares à mão e estou marcando a data do lançamento para fevereiro. Mas eu ainda vou escrever o texto sobre autopublicar um livro: o que importa aqui é que eu finalmente saí do estado de inércia onde eu só consumia, consumia, consumia e voltei a fazer, fazer, fazer.

Tudo hoje em dia é atravessado pelo consumo e pela conveniência. Experiência virou sinônimo de comprar. Comprar é mais fácil que nunca, um clique e deu. Trabalhamos tanto que gastar dinheiro é um imperativo. Preenchemos o vazio com coisas. Prazer instantâneo não é opcional. Encontramos nossos amigos em lugares que temos que pagar para estar. Não aprendemos a fazer as coisas porque tudo é um serviço possível de contratar ou um produto que chega na porta de casa em quinze minutos. A gente consome conteúdo por horas a fio todos os dias.

Penso na estética da IA. Pra mim, é o equivalente ao plástico ou ao MDF. Feia pra caralho. Essa provavelmente é a estética do futuro (ou do presente), assim como o plástico tomou conta de tudo. Mas ainda existem móveis de madeira artesanais e isso nunca vai deixar de existir enquanto houver pessoas que os façam. Eu não sei fazer móveis de madeira, mas sei cozinhar, sei plantar, sei fazer livros, sei crochetar, sei escrever, e sou muito feliz quando consigo me dedicar a essas coisas que são reais, materiais, corporais, vivas, que eu vi nascer porque estava lá desde o começo. Coisas que nunca vão parar de existir enquanto eu existir, mesmo que em volta de mim tudo seja vídeo de curto formato feito por IA. Me traz um tanto de esperança, que anda meio em falta.

Fazer mais do que consumir é minha resolução pra esse ano e não é uma questão de quantidade, nem de deixar de comprar coisas. É mais um jeito de perceber & navegar esse mundo doido.

Abraços,
luana adriano

Fala comigo 💌 oi@luanadriano.com.br

Deixe um comentário