Sonho em ser dona de casa

Contra todas as minhas convicções de adolescente, hoje sonho em ser dona de casa. Ingrid Fagundez, em seu livro Diário do fim do amor (Fósforo, 2025), descreve perfeitamente os meus desejos.

“Sou a primeira dona de casa solteirona da família. Dona sem as aspas porque não exerço a função de maneira exclusiva, mas tenho a propriedade de onde moro — nome no contrato, corpo sobre a cama. Por mais que às vezes a divida, preservo-a como inteiramente minha, assim como a sala, a mesa de pernas torneadas, o forno que aquece rápido demais, a geladeira e seus zumbidos. Em frente a Outros me confundo. Sozinha, escrevo e existo.”


Eu era bem jovem quando entrei no mercado de trabalho e o mundo estava começando a se transformar rapidamente — o meu mundo interno, na transição para a vida adulta, e o grande mundo também. Era 2013 e não levou muito tempo para que os sonhos de carreira deixassem de fazer sentido. Logo compreendi que o mercado de trabalho é cruel com as mulheres, a aposentadoria é uma lenda & o mérito tem pouco valor. Marx ajudou a recolher os caquinhos dos meus sonhos de trabalho e jogamos-os fora.

Passei muito tempo sem sonhar depois que construir uma carreira parou de fazer sentido & a crise climática se estabeleceu no horizonte. Por um breve período, sonhei com a revolução, mas a esperança necessária para tal morreu durante a pandemia. Como muitas, desaprendi a sonhar. Por isso, fiquei surpresa ao perceber que estava visualizando um certo futuro pra mim.

É uma imagem simples: imagino uma pequena casa, de madeira e pau-a-pique, rosa, branca e terracota, com o telhado marrom escuro. Há um quintal repleto de tons de verde, árvores frutíferas que eu mesma plantei, um canteiro de ervas medicinais, uma rocinha de milho. Um cachorro de porte médio & um gato, ou dois, me fazem companhia. É um lugar mais afastado, um pouquinho difícil de chegar. Dá para ouvir os pássaros durante o dia & o bambu roncando à noite. Talvez eu divida a casa com alguém, talvez não. É final de tarde e eu apareço sob o batente da porta de entrada usando roupas leves, de ficar em casa. Meu corpo continua pequeno apesar de um pouco mais velho, seguro alguma ferramenta na mão. Está chegando alguém, uma amizade que vem me visitar pra conversar, comer, brincar.

É o sonho de uma vida doméstica. O sonho de ser dona de (uma) casa.


Virginia Woolf tinha razão. Tudo que uma mulher precisa é de um quarto só para si.

Ano passado, passei a morar sozinha pela primeira vez. Meu companheiro e eu decidimos morar separados depois de quase oito anos dividindo o mesmo teto. O principal motivo da mudança é que eu queria saber o que era meu. Ao longo dos nossos vinte-anos, ele me apresentou um bocado de coisas que formaram a pessoa que sou hoje, mas eu queria ter certeza de que essas coisas eram realmente minhas. Será que eu teria uma horta se não fosse com ele? Será que continuaria cozinhando? Levou pouco tempo para eu perceber que sim. Me surpreendi foi com outras descobertas.

Em frente a Outros me confundo. Sozinha, escrevo e existo. Escrevi o trecho do livro de Ingrid Fagundez num papel e colei com fita na parede em frente à escrivaninha. Junto a ele, tem uma xilogravura que fiz em 2019 que é um retrato da minha vó. Uma cerâmica que comprei em Salvador. Um calendário do ano passado. Um desenho em giz pastel do céu de Florianópolis na primavera. As etapas do meu processo criativo escritas à mão com tinta nanquim: viver, registrar, arquivar, editar, produzir e publicar. Sobre a mesa, uma impressora, uma mesa de corte, um computador; canetas, lápis, borracha, tesoura, régua, agulhas, papel, livros & cadernos, um iPhone 7 que está sempre sem bateria. A mesa fica no escritório-sala-cozinha que é o meu espaço de criar-escrever-trabalhar. O lugar onde existo.

Nesse pequeno espaço, descobri que minha vida & minha poesia são a mesma coisa e que o cotidiano é minha musa. As plantas me ensinam todos os dias que eu poderia ficar imóvel e tudo continuaria mudando. Registraria essas mudanças e escreveria um poema diferente toda vez, sem sair do lugar. Lembro das cartas de Rilke: se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Aqui encontrei meu corpo. Olho mais pra ele já que não preciso estar completamente vestida o tempo todo. Observo minhas mãos, meus braços, meus joelhos, meu quadril, minha barriga. É difícil achar meu corpo feio quando lembro de tudo que ele é capaz.

Deito sobre a cama, encaro o vazio, a louça suja, a aranha no canto da parede. Não preciso fazer nada, posso fazer tudo, inclusive imaginar a expansão da realidade que já construo. Me parece um bom jeito de reaprender a sonhar.


micropolítica

o que eu quero da vida?
usar meu tempo de maneira
propositiva
criativa
& compartilhada
com as pessoas
& a natureza