Eu ainda sou assombrada por uma sequência de dias ali por abril de 2021, época em que meu pai morreu. Não é assombrada no sentido de assustada, mas a aura de mistério, por conta das memórias nebulosas, e o fator inédito que envolvem o episódio me fazem pensar muito sobre quem eu fui e o que eu fiz naqueles dias.
Hoje eu respondo às perguntas da seguinte maneira: quem eu fui? uma pessoa em profunda & rápida transformação; o que eu fiz? o que me dava prazer.

Encontrei várias fotos no meu celular do dia 6 de abril daquele ano, o dia em que eu recebi A Ligação. Não lembro a hora que minha mãe ligou dizendo que era só uma questão de tempo e que eu devia ir pra casa, mas os registros que encontrei no rolo da câmera não tem nada a ver com a notícia que veio pelo telefone.
As fotos da manhã são de um passeio com meu namorado e meu antigo cachorro, saímos para coletar microorganismos na floresta. Era pandemia, eu morava do lado de um pedaço de Mata Atlântica. O terreno, próximo à restinga, era arenoso e as trilhas desembocavam em dunas altas com vista para uma floresta de pinos. Ao fundo, o mar. Usando uma técnica de agricultura coreana que utiliza arroz cozido enterrado em solo fértil, saímos de casa com uma cesta de palha cheia de arroz, encontramos um lugar adequado ao pé de uma árvore, cobrimos a cesta com folhas secas & terra repletas de fungos, e voltamos pra casa.
À tarde, aparentemente, colhemos milho da pequena roça que tínhamos no quintal, pois há uma série de selfies com o milho crioulo recém-colhido. Em uma das fotos seguro o milho, o cabelo raspado, os olhos brilhantes, a boca num meio-sorriso, a camiseta preta de tricô. Sempre que vejo essa foto, me pergunto: será que ela já sabia? Será que já tinha sido atravessada pela notícia e tentava seguir o dia que, até então, estava sendo bom? Eu tento decifrar aquele olhar até hoje.
O último registro do dia é um vídeo dos meus pés caminhando na rua de terra, provavelmente indo até o mercado. Usava uma calça comprida de tactel cinza da Adidas com os bolsos furados, eu lembro, e um tênis de lona surrado que eu encontrei num brechó. Dos meus pés, a imagem se desloca para vários coelhos em frente à casa de um vizinho. O apelido da rua que eu morava era, justamente, rua dos coelhos.
O registro seguinte já é no outro dia: uma selfie dentro do carro. Estava de máscara pff2 e óculos escuros. Não consigo ver meus olhos, mas aquela versão de mim já sabia que tudo estava prestes a mudar. O carro estava me levando até o hospital, 200km longe dali. Há, inclusive, uma série de selfies que eu tirei ao longo dos dias que se seguiram. Eu já suspeitava que era uma pessoa em profunda transformação e estava registrando o meu rosto pra lembrar não quem eu era, mas quem eu estava sendo. Registrar para lembrar. Como era meu rosto quando eu perdi meu pai? Como a dor e o luto impactaram o meu corpo? O que eu estava vestindo e, meu deus, como era possível dar atenção às roupas naquele momento?
O que eu acabei capturando foi o estranho fato que a minha vida seguiu. Entre uma selfie com o milho & outra no carro, tudo mudou & tudo seguiu meio parecido.

Nas semanas seguintes à morte do meu pai, eu cancelei todos os meus trabalhos e não dei desculpa alguma. Me debrucei em livros de ficção. Comprei tinta, papel kraft & pequenos quadros. Voltei a pintar e convidei meu irmão pra pintar comigo porque ele também não foi pra escola por um tempo. Eu pegava sol sobre a grama do quintal. Mantinha uma newsletter, escrevia poesia. Escrevi muitos poemas nessa época. Preparava aveia dormida com leite vegetal todas as noites & comia com banana, morango e pedacinhos de chocolate meio-amargo todas as manhãs. Me alimentava bem & fazia questão de cozinhar pra minha família. Dormia com a minha mãe.
Simplesmente viver os dias era difícil. Então, me colocar em situações confortáveis, cuidar de mim, usar meu tempo de maneira propositiva, criativa & compartilhada era o mínimo que eu podia fazer por mim naquele momento.
Como muitas coisas na vida, só percebi isso anos depois, num momento em que estava me sentindo estagnada criativamente. Não conseguia ler, muito menos escrever e desenhar. Então, me lembrei de quando escrevia poemas, de quando mantinha uma newsletter semanal, de quando descentralizei o trabalho e abri espaço para outras coisas. Buscava referências positivas no passado & as encontrei no episódio mais triste da minha vida.

Foi lendo alguns textos da Donna Haraway que consegui amarrar as pontas soltas em relação a tudo que narrei aqui. Haraway foge da oposição binária clássica do isso ou aquilo, como natureza ou cultura, humano ou não-humano. Em vez disso, ela propõe isso e aquilo. Nunca é uma coisa ou outra, sempre é uma coisa e outra e outra e outra e outra.
Suspeito que a gente se agarre a conceitos binários pra não encarar as contradições & complexidades que vem com duas ou mais coisas sendo verdade ao mesmo tempo. Mas quando olho pra trás, vejo que, nos anos em que morei perto da floresta, fui muito feliz; aprendi a me relacionar com as pessoas & a natureza de uma maneira que transformou definitivamente a minha subjetividade. Foram os mesmos anos logo após a morte do meu pai, anos em que a tristeza estava marcada no meu corpo, em que voltei a tomar antidepressivos, em que a ansiedade & o luto formaram um nó que eu demorei muito tempo pra desembolar. Foram também os mesmos anos em que comecei a escrever poesias, aprendi a dirigir, construí um forno de barro, fui uma leitora voraz, mantive uma newsletter semanal, adotei um gato…
Lois Tonkin escreveu que o luto não diminui de tamanho, é a vida que cresce em volta dele. Gosto dessa ideia porque me lembra que a morte existe-com a vida. As verdades são múltiplas & se esbarram o tempo todo. Quando aceito isso, sofro mais e sofro menos.
Meu pai completaria 59 anos esse mês. Em vez disso, meu luto completa cinco. Minha relação com esse acontecimento segue se transformando & eu sigo escrevendo. Obrigada por ler.

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