Inventou uma viagem e agora tem que ir, né? Foi isso que um amigo me disse depois de notar meu desespero com uma única troca de olhares. Tem dessas amizades que a gente não precisa usar palavras pra se comunicar.
Eu decidi ir pra Laguna de carro no feriado de Carnaval com uma amiga. Não estávamos no clima carnavalesco e a festa é forte por lá, mas sabia que também conseguiríamos encontrar refúgio. Minha vó mora em Laguna, passei muitos verões na casa dela; conheço bem a Estrada da Madre em direção ao interior e sinto saudades de comer crepe suíço depois de uma tarde de praia no Mar Grosso. Mas eu nunca tinha dirigido até lá; na verdade, eu nunca tinha ido de carro até cidade alguma. Dirigir até Laguna era minha fantasia de Carnaval e, enquanto o plano era um plano, eu estava animada. Mas a ansiedade me persegue nos caminhos do desejo e, nos dias que antecederam a viagem, eu estava uma pilha de nervos.

Tem uma foto dos meus pais sobre uma pedra no Farol de Santa Marta. A década de 90 tinha acabado de começar, eles eram namorados, os cabelos cacheados. Gosto de imaginar como foi aquele dia: acordaram na casa da minha vó, mãe da minha mãe, e almoçaram cedo porque o almoço da Dona Matildes sempre sai às 11 horas; entraram no carro com cadeiras de praia & guarda-sol, percorreram a estrada de terra cheia de curvas, atravessaram a rodovia sobre a Lagoa do Imaruí e pegaram o acesso à cidade em direção à balsa; estacionaram sobre a plataforma, pagaram a travessia em dinheiro e aproveitaram a vista do canal antes de seguir viagem por mais 18km até o Farol, onde, em algum momento, alguém os fotografou sobre uma das milhares de pedras que ilustram a paisagem lagunense.
Depois que eu nasci, as viagens pra Laguna continuaram, sempre no verão quando meu pai tirava férias. Lembro de viajar deitada no banco de trás do carro e de quando esse privilégio acabou depois que minha irmã nasceu. O espaço ficou ainda mais apertado quando chegou meu irmão. Na história das viagens de carro em família, era sempre meu pai quem dirigia e o carro estava sempre cheio; éramos cinco pessoas, havia cinco lugares. Até que ele morreu.
No verão seguinte ao seu falecimento fomos visitar minha vó, minha mãe dirigindo na BR-101 pela primeira vez em vinte anos de habilitação. A nova disposição de corpos nos assentos do veículo foi simbólica: minha mãe no volante, eu no banco da frente, meus irmãos atrás & um espaço vazio.
Adiciono um novo elemento dramático: parte dessas viagens aconteceu no mesmo carro, um Uno Mille Fire 2002, que hoje pertence a mim. Foi esse carro, sem ar-condicionado nem direção hidráulica, que eu dirigi até Laguna. De novo, uma nova disposição de corpos. Na viagem que eu fiz minha vida inteira, eu ocupava agora a única posição que restava.
Quando contei essa história a um amigo, ele me trouxe a palavra legado. Meu pai não deixou heranças materiais, até o carro eu acabei comprando da minha mãe. O que ficou foram os rituais e a responsabilidade de sustentá-los, como uma missão, um exercício de manter viva uma memória enquanto a vida de quem permanece se ressignifica através desses mo/vi/mentos.

Deu tudo certo com a minha viagem. Antes que eu pudesse assimilar de maneira consciente sua importância, meu corpo compreendeu tudo, por isso a ansiedade que tomou conta de mim nos dias que a antecederam.
Saímos de Florianópolis e percorremos a BR-101 em direção ao sul. Havia bastante movimento na estrada, pois o feriado mais longo do ano estava prestes a começar. Em pouco mais de duas horas, passamos pela Ponte Anita Garibaldi, pegamos a primeira saída à direita para atravessar o viaduto à esquerda em direção à Estrada da Madre. Hoje, ela é quase toda asfaltada, mas as curvas continuam as mesmas. Nosso destino final é umas das últimas comunidades do interior da cidade. Os rostos seguem familiares, só não encontro aqueles que já partiram. Até hoje, quase ninguém sabe meu nome, sigo sendo a filha da minha mãe. Estaciono no mercadinho que, de acordo com uma placa, tem vagas só para clientes, mas o estacionamento é maior que a quantidade de carros que param ali, então me dizem que tudo bem, não tem problema. Subo o morro até a casa da minha vó, almoçamos cedo, 10h55 dessa vez; purê de batatas, vegetais cozidos & peixe ensopado. Descanso sobre a cama em que já dormi tantas vezes antes de pegar a estrada de novo. Dessa vez, vamos ficar hospedadas mais perto da praia.
O caminho agora é praticamente o mesmo que meus pais fizeram no começo dos anos 90: percorremos a estrada cheia de curvas, atravessamos a rodovia sobre a Lagoa do Imaruí, pegamos o acesso à cidade em direção à balsa, estacionamos sobre a plataforma, pagamos a travessia em dinheiro e aproveitamos a vista do canal antes de seguir viagem até a Ponta da Barra, logo à esquerda. Estaciono o carro na garagem onde ele vai ficar pelos próximos cinco dias e mando uma mensagem para minha mãe: chegamos bem. Missão cumprida.
Obrigada por me ler.
