se essa rua fosse minha
ela se chamaria
servidão voluntáriaeu te amo
portanto,
quero que seja feliz
e livre!você me ama
portanto,
por que continuo
me prendendo?
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Reencontrei esse poema que escrevi em 2022. Gosto da sua transparência: há dúvida & insegurança, mas também uma disposição para enxergar o outro, compreender que seu desejo não me pertence.
Um tempo atrás, conseguia compartilhar esses sentimentos com pessoas que também experimentavam formatos de relações não-convencionais. Acho que conseguia compartilhar mais até comigo mesma. Hoje, parece que a maioria provou & não gostou. Tudo bem.
Gostar não está muito em jogo pra mim — às vezes eu gosto, às vezes eu não gosto mesmo. Mas eu acredito que uma relação não deve limitar o desejo das partes envolvidas, muito menos fazer disso um analgésico para a própria insegurança. O remédio que trata o sintoma, mas não resolve o problema. É só sentindo que consigo enxergar & conhecer minhas inseguranças, com sorte aceitá-las. Não me parece justo colocar sobre o outro o papel de tranquilizá-las, são minha responsabilidade. Além do mais, garantias não existem de verdade. O analgésico, nesse caso, opera num efeito placebo.
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Encontro, na literatura, algum conforto.
Quais são as suas leis e quais são as minhas?
Isso sempre vai ser um segredo.
Nada funciona a não ser com faíscas.(Kayak, Laura Wittner — Tradução na estrada)
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Como na crônica de Clarice, “Por não estarem distraídos”:
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. […] ]Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. […] Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
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E em outro poema de Laura Wittner, porque ela escreve tudo que eu tenho vontade de escrever também:
Por que falamos quando falamos de amor
Hoje você disse jantar em vez de almoçar;
depois eu disse almoçar em vez de jantar
falando de outra janta, outro almoço.Os dois dissemos palavras erradas
mas confio que haverá uma solução,
na qual poderemos retomar a trilha
do bem-falar, do bem-estar.
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E continuo escrevendo:
fazer planos
construir nossas vidas
sonhar com o futuro
ao lado das amizades
dos amores
da família
(que é tudo a mesma coisa)
com gatos & cachorros
desejos necessidades & falhas
escrever nosso próprio manual
pra sempre editável
de como amar & ser amado
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Diferentes tipos de escrita requerem diferentes percepções de mundo — do nosso pequeno mundo & do Grande Mundo. Nos últimos meses, eu tô com olhar de poeta. Leio poesia, escrevo versos. Tudo meio fragmentado, um pouco inacabado, mas que também funciona como um convite para entrar. Ensaios demandam um outro cérebro, não tenho encontrado ele.
o que virá,
dirá.
