O livro Rejeição, de Tony Tulathimutte, chamou minha atenção pelo título e pela capa da versão em português, lançada pela editora Fósforo. Os sete contos que compõe a publicação exploram um universo ultra-contemporâneo & tragicômico; exagerado ao ponto de provocar vergonha ao reconhecer em si mesmo o menor traço de qualquer uma das personagens. O fio que une todas as histórias dá título à obra: todas as personagens, de alguma maneira, se sentem rejeitadas.
Como leitora, acompanhando os contos a partir dos aspectos que o autor escolheu nos apresentar, é fácil identificar porque aquelas personagens são & se sentem rejeitadas. Mais do que isso, é possível ver como elas facilitam a própria rejeição. E é justamente nesse ponto que consegui elaborar mais profundamente o meu relacionamento com a rejeição. Os itálicos já revelam um aspecto da minha nova perspectiva: ser & se sentir rejeitada são estados que não mantém uma relação direta de causa & efeito. E, por enquanto, me parece que é nessa lacuna (ser—sentir) que dou tiros no meu próprio pé.
Na mesma época em que comecei a ler o livro de Tulathimutte, eu deitei no divã falando sobre a horrível sensação de ser escanteada & me levantei com a nova certeza de que, quase todas as vezes que essa sensação aparece, sou eu mesma que me coloco de escanteio. Mas o meu repertório de futebol é reduzido, então eu procurei imagens mais familiares pra entender esse comportamento, até que eu cheguei na metáfora da festa.
A festa da rejeição tem dois ambientes. O centro, com luzes coloridas refletidas numa bola de espelhos, onde as pessoas se encontram, dançam, conversam, riem, se divertem, se sentem pertencentes. É o espaço onde as relações acontecem. E tem os cantos da festa, onde a luz principal não chega, não se interage, não se conversa, não se dança, não se ri, não se sabe direito o que fazer com as mãos.
Por motivos que podem ser tão antigos quanto as células que já formaram meu corpo e há décadas não mais o fazem, eu chego na festa e vou direto pro canto, o espaço metafórico onde as relações não acontecem. Ali permaneço, pelo tempo que minha dignidade permitir, na esperança de que alguém se lembre de mim, me procure & me puxe para o centro da festa. Minha existência, enfim, validada, sem precisar fazer nada. Só assim, eu sinto que posso & mereço estar em relação.
Agora, se isso não acontece, se ninguém do centro da festa lembra de mim, me procura & me puxa pela mão, eu me sinto rejeitada. Mas ninguém está, diretamente, me rejeitando: eu me coloco na situação que facilita meu isolamento. Nada, além das minhas próprias escolhas, impede que eu me movimente para o centro da festa ou para fora dela. Eu escolho ficar no canto & coloco sobre o outro a responsabilidade de me incluir — e fico chateada quando isso não acontece.
Eu já identifiquei outro comportamento que adiciona uma camada de complexidade na minha relação com a rejeição: às vezes, acredito tão fortemente que serei rejeitada, que eu rejeito o outro primeiro. Usando a metáfora da festa, isso poderia se dar quando eu não vou na festa porque acho que a pessoa está me convidando só por educação.
Desde que elaborei a festa da rejeição, ficou mais fácil de identificar quando estou repetindo esses padrões. Nem sempre consigo romper o ciclo & mudar meu comportamento a tempo — quando vi, já foi. Mas uma coisa eu entendi: não tenho nada a perder ao me movimentar em direção ao outro.

Olhei pela janela do quarto assim que terminei de escrever o parágrafo anterior. O céu estava azul e era um daqueles domingos de outono que a gente fica com calor no sol & com frio na sombra. Preciso aproveitar o dia, pensei, e liguei pra minha amiga Nathaíne. Era um tiro no escuro, ela podia muito bem não atender ou estar ocupada. Ela atendeu, disse que estava com Madu e que tinham acabado de falar de mim. Fui até sua casa. Passeamos pelo bairro, visitamos antigas amizades, assamos uma focaccia, fomos ver a lua nascer no mar & terminamos a noite em volta de uma fogueira assando marshmellows com outras dez pessoas.
Sem esperar que fossem me buscar, eu fui pro centro da festa.
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[…] a tiny step
in the vastly
conventional
path of
the Sun. I
squint. I
wink. I
take the
ride.(trecho de peanut butter, de eileen myles)
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(Todos os exemplos incluindo festas são metafóricos. Eu não vou em festas de verdade.)
Obrigada por me ler,

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