Quantos poemas eu perdi

  1. Quantos poemas eu perdi durante madrugadas sem sono, jurando que pela manhã eu ia me lembrar deles? Estou numa madrugada sem sono, agora com o computador no colo. Pensei num par de versos, no título desse texto, lembrei que minha mãe estava em um avião em direção a londres e peguei o celular pra checar se tinha mensagens. Bom dia de londres, ela escreveu.
  2. Mover-se em direção aos desejos. Vinte seis anos separam minha mãe e eu, mas estamos em uma fase parecida: pós-homens, compreendemos que existe um universo inteiro a explorar quando paramos de orbitar estes corpos, aparentemente celestes. Minha mãe só descobriu isso depois que a Morte levou o seu; eu só precisei de uma morte. Vivemos muitas mortes antes da Morte.
  3. A beleza e a generosidade da Vida tem me feito chorar ultimamente. Eu tinha medo de terminar meu relacionamento, pois não queria perder mais um homem (o homem da minha mãe foi também o meu homem, meu primeiro homem). Mas uma morte não é a Morte. O relacionamento acabou, mas ainda vou na casa do eduardo, abraço o eduardo, sinto o cheiro do eduardo, digo eu te amo para o eduardo, escuto eu te amo de volta. Eu só ganhei. Que sorte a minha, amar tanto alguém, ser amada de volta na mesma medida; mas isso nem importa tanto, na verdade, importa o amor que eu consigo sentir. Será que é sorte? Será que isso é deus? Eu acho que deus é a beleza e a generosidade. Eu acho que a Poesia é deus.
  4. Lembrete: retomar a leitura de Simone Weil, O peso e a graça é o mais próximo que encontrei de uma bíblia.
  5. Como está o mundo lá fora? bruno, que quase nunca sai de casa, pergunta para mim, que quase sempre saio de casa. O mundo tá doido demais, eu respondo, e a parte mais estranha é a normalidade.
  6. Na madrugada boladona em que escrevo esses fragmentos, faltam trinta dias para as eleições. Quase não se fala sobre isso. Eu, que sou junkie de podcast, escuto sobre o assunto, mas não falo com as pessoas. Não quero pesar o clima. O clima! Não tem água na minha casa. Choveu forte no fim de semana, teve um problema no abastecimento de água da minha região. Ontem tomei um banho no eduardo, depois outro no bruno. No mercado, as água de 20L, 5L e 1,5L acabaram, só tinha de 500ml. Doze garrafas pet com água mineral descansam sobre o sofá da sala; usei 5L de água que trouxe de outro bairro para dar descarga na minha privada. Tráfico de água. E o el niño nem começou direito. Vai ter seu pico em outubro — mês das eleições. Esse é o meu ponto quando digo que o estranho é a normalidade.
  7. Fui numa festa no domingo. Em meio às luzes fluorescentes e tinta neon, no décimo segundo andar de um prédio, em um apartamento socado de lésbicas e etc, todos os celulares receberam a notificação da defesa civil: chuva intensa na próxima hora, procure abrigo. Exausta, dei tchau para quem estava a 30cm de distância e saí correndo. No hall do prédio vi que a chuva de granizo já tinha começado. Carros na rua subiram na calçada para proteger a máquina das pedras de gelo. Ainda bem que meu carro é um tanque de guerra, pensei. Uno mille é o carro do fim do mundo mesmo, obrigada fiat.
  8. Água que cai do céu, entra nas casas pelos buracos que se formam no telhado em vez de sair pela torneira. Tudo isso, enquanto escrevo um projeto para um edital de cultura: quero lançar uma publicação literária, cheia de poesias & fragmentos & haicais, sobre a emergência climática. Mando mensagem para felipe solicitando que revise os arquivos que enviei: hoje não dá amiga, ele responde, a minha casa tá cheia de água.
  9. Vítimas do colapso enquanto escrevemos sobre ele, no entanto, a normalidade. Uma festa no domingo, um clube do livro. Pelo menos nosso discurso não é mais sobre evitar o pior, mas viver nas ruínas depois que o pior acontece. Estamos em 1,4°C acima da temperatura média do planeta; até 2050, estima-se que chegaremos a 2,8°C, mas essa é, também, uma média: o brasil pode chegar a 3°C ou 4°C. Estava ouvindo um podcast sobre isso antes de dormir, meu lullaby junkie. Eu vou ter cinquenta e cinco anos em 2050, mais jovem que minha mãe que está em londres. É provável que eu nunca conheça londres.
  10. Olhar pela janela e desistir de tudo porque o mundo tá doido demais. Olhar pela janela e escrever um livro de poesia porque o mundo tá doido demais. A justificativa funciona para a paralisia e para a esperança. Cozinho nhoque, faço um pesto. Leio O peso e a graça. A esperança; há esperança.